Soou-me a ti

És em quem penso quando adormeço.
Quando conheço um sitio novo, és a pessoa a quem quero mostrá-lo.

É a ti que quero contar os meus segredos.
Mesmo aqueles que sei que não irás compreender.

Dei por mim a parar de ler o meu livro para ouvir um estranho a conversar ao telefone.
Ele soou-me familiar.
Soou-me a ti.
E foi aí que me apercebi.

E senti que tinha de sair de cena.

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E se eu não quiser arriscar?

Entre as saias e o collants, embrulhei-me na antiguidade das duas personagens.
Cinzentas.
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Perderemos a cor com a idade?

As palavras que saltavam falavam de tempos de tostões e de trabalho.
‘Ai que belos tempos!’ – escapava.

Caminhamos em frente, porque não temos outra alternativa.
E se quiser parar? Não posso.
Existe a obrigatoriedade de prosseguir, mesmo não querendo.

E se não gostarmos do que vamos encontrar?
E se não tivermos uma mão para nos acompanhar no caminho?
E se o que está no agora for melhor do que o que está no amanhã?
E se eu não quiser arriscar? 

Se tiver medo ou de todo não me identificar com o que vem?
Quem ficará cá para contar a minha história? 
Como vão saber que existi?

Jaula

Sinto-me confinada ao espaço invisível que criaste na tua imaginação.
Os laços que inventaste, fazem-me comichão no nariz.

Não te vi longe e não te quero ver perto.

As tuas melodias são de outrora e não enchem os meus ouvidos.
Pára de sussurrá-las!

O meu Deus, sabe bem que os meus olhos já estão tomados.
O meu peito será esmagado pelo pé de Eos e não há nada que possas fazer.

Deixa-me partir.
Não sejas como os restantes que ficaram com a réstia do meu cheiro a prender-lhe o passo.

Sou minha e de quem quero.
Sou do Universo e sou do escuro do meu quarto.

Troquei contigo o calor da minha pele pela pureza fingida.
De todo me tomes como ingénua.
Não te deixes enganar pelos meus traços, sou mais do que aquilo que o olho apanha.

Voltas

As palavras fluem na minha cabeça mas param antes de sair dos meus lábios.
O que és tu que as fazes parar?
Não me mexo como antes,

Repenso e repito.
Ações, palavras, sentimentos,
Mas não sabem ao mesmo.

Ainda me surpreendo com a pequenês de tudo isto.
Prendo-me aos detalhes de cada página e reparo que me roubaram os pincéis.

Não me tento dar a entender,
mas faço-me de desentendida.
Não é mentir, pois não?

Tirei há pouco a maquilhagem que cobriu os meus traços durante toda a semana.
É uma máscara, 
Uma proteção.

Despiste-me de tudo e não me tocaste.
Não sei o que fazer com isso.
As minhas unhas não rasgaram a tua pele,
Não sentiste o meu externo contra o teu, mas de alguma forma sentiste o meu coração a funcionar.

Ritmo

Já tive 18.
Já tive 23.
Aliás já me senti com 40.
Mas agora vivo!

E sorrio com as possibilidades de caminho.
Adoro e volto a sorrir.

Aceito os elogios e sinto-os.
Pisco o olho à nuvem.
O nada que existe e o tudo que enche o nosso ar.

Bolas.
O que nos deixamos perder!
E tanto que esteve cá fora à nossa espera.

Abraço cada segundo.
Adoro cada silêncio.

Agradeço de olhos fechados
E danço ao som do ritmo do meu coração!

Seen it before

Nada é especial ou único.
São tudo repetições sucessivas de momentos anteriores.

Já vi isto antes.
Já nos vi antes, em outros corpos mas com as mesmas palavras e semelhanças.
Lembro-me do que aconteceu.
Lembro-me que tive de te afastar. Lembras-te?
Lembras-te do que causaste? Do que fiz?

Não podes ser isto.
Não consigo.
É demasiado.

Há seis meses passei de um nós, para um eu.
E é assim que quero manter-me.

Egoísta? Sim.

A tua energia já alterou o meu ambiente, sabe a antigo.
Sabe a filme a preto e branco.
E tenho de pôr em pause.

Desculpa.
Sossega, não vou a lado nenhum.