Chicote

Amarrada a quatro estacas, chicoteias-me a cada pestanejo,
e enquanto as minhas lágrimas de dor escorrem, tomas o sorriso de prazer dos meus lábios, como um “querer mais”.
Continuas o flagelo, encarniçando o meu corpo, e ainda pior a minha mente,
depositando toda a raiva e rancor em mim.
O meu corpo, esse sim aguenta,
mas o meu pensamento, já destruído, geme a cada toque…
A minha face salpicada pelo sangue, carrega o meu desejo.
Mas o meu coração fica, sim, destruído, quando me ignoras, soltando o chicote e abandonando-me, ali…
Presa…
Sem ti…
Morta…

Dá um tiro na cabeça e acaba com a dor.

Injectei nos meus olhos, veneno, no seu estado mais puro,
fazendo a retina explodir, deixando apenas mais um espaço vazio no meu corpo.

O sangue escorria p’las minhas faces, deixando-se degostar nos meus lábios,
o meu sabor…o meu ser estava agora presente na minha lingua, na minha boca.

A Morte sussurrava-me ao ouvido:
-“Dá um tiro na cabeça e acaba com a dor…”
E a ideia corruía-me a mente,
e o desejo de o fazer aumentava a cada nanosegundo..
Só precisava de uma arma…
Era só isso, que estava entre mim, e Ela…
O tempo decorria, e eu fraquejava, caindo sobre mim.
Os sons tornaram-se ruidos ensurdecedores,
e as vozes que recaíam sobre mim torturavam-me.
Os demónios voltaram.
Sentia-os á minha volta,
as suas presenças,
as suas vozes,
os toques das suas garras a rasgarem-me a pele,
despedaçando-me em mil partes.
O quarto enchia-se agora com gritos de dor,
os meus gritos,
a minha dor.
A Morte não me queria levar dali,
pousava ali a observar-me, sem expressão aparente,
e enquanto lhe suplicava por um final, Ela apenas me fixava,
até que, como por bruxaria, desapareceu,
deixando-me a ser comida viva por Eles.


O quarto era agora, escarlate, os tecidos tingidos p’lo meu sangue pingavam, ainda, pequenas gotas, e nas paredes, pedaços de mim escorriam…
Encontrava-se na confusão ainda, um pulmão, o fígado e o meu cérebro despedaçado.

Era apenas eu!

Prisão…
Encurralamento…
Solidão…

Fechado em mim encontro um universo paralelo,
onde as meninas inocentes se transformam em criaturas carnívoras e nos perseguem e atacam,
onde o ar é de uma tonalidade negra e irrespirável,
e onde as lágrimas ácidas que choro, ao toque, expõem-me os ossos…
É um mundo escuro, onde o que se vê é mentira, e onde o imaginário patético e mortal se unem para nos destruir,
Um local onde os gritos e gemidos pairam no ar,
onde a dor e a morte os atacam e possuem,
e onde o sórdido e o perverso são réis do psicológico.
Sentir é a palavra proibida. Aqui não há sentimentos, nem emoções.
A água é sangue, e o sangue é veneno;
O dia é de evitar e a noite para sobreviver;
O escuro é o terror, e a claridade, morte certa,
o cheiro indescritível é o da Morte, que nos persegue e arruína, corroendo as nossa vísceras e entranhas.
As crianças cantam sobre vermes e cadáveres,
enquanto as sombras nos assustam e arrepiam, com o constante mover de objetos.
Não há Sol, só Lua.
Lua essa, que se vê vermelha, a transbordar com o sangue derramado dos inocentes.

Num rápido e quase mortal instante, sinto o sangue desse satélite a percorrer o meu pulso, descendo para a minha mão, e neste acordar doloroso, reparo que “aquele” Mundo era apenas o meu quarto, e que toda a maldade e horror, que tinha sentido, era apenas eu.

Perseguida por sombras

Escondo nesta aparência vulgar
uma mente de sombras e lamúrios.
Absorvo o negativo que existe em tudo e transformo-o em dor…na minha dor.
As minhas lagrimas, são as palavras e as rejeições de outrem,
e os meus desejos,são medo.
Os demónios que me atormentam, matam-me por dentro, enquanto exteriormente esforço-me para disfarçar.
Andando no meio da multidão, desapareço!
Ouço os pensamentos de toda a gente, assim como os seus fantasmas.
Flutuando, trespaço-os, sem os deixar sentir-me, e fujo!
enforco-me na simpatia e na felicidade, cegando todos.
Consegues ver-me? Sentir-me?
A resposta será: Não!
Ninguem consegue…
E poucos tentam.
E os que conseguem, arrependem-se, assustam-se e vão.
Todos os meus orgãos foram remexidos, e no meio da confusão, perderam-me o coração,
e com a pressa do momento, trocaram-no por um pedaço de espelho partido.
Cada vez que lhe querem chegar, sangro,
um fluído que nem parece real.
Oh maldição, porque me persegues?!
Nunca te perturbei ou desejei.
Deixa-me viver, esta “so called life”.
Deixa-me ser, só mais Uma.

Complicação interessante

Porque não me olhas nos olhos?!
Queria apenas que visse bem fundo e que não tivesses medo como sempre tiveste.
Que olhes bem e Me vejas,
a mim e ao que vai na minha cabeça
que suponho ser exactamente o que vai na tua,
o Desejo, o Descontrolo.
Mas afastas-te…
Viras a cara e separas a tua respiração da minha,
tudo para não eu não ver o que te vai nos olhos.
Esses olhos que tantas vezes fixam os meus lábios
e cada movimento que faço com eles.
Porque não me beijas?
Oh…desejo-te tanto.
É só fechar os olhos e consigo sentir-te perto,
a deixares-te sentir-me…o meu corpo, os meus lábios, o meu querer…
Essas provocações infindaveis sem fundamento…
Porque me fazes querer-te tanto?

Vestida agora de pijama e despida de tudo o quanto conheces, pergunto-me, ainda passados tantos anos…
O que é isto entre nós?
Esta paixão, esta carência de nos termos, que está tão bem disfarçada, pela máscara da amizade…
Para os outros é um perfeito disfarce, mas desde cedo o descobri…
E tu? O que vês?