Um vaziozinho…

A morte é aquela coisa tão “natural” para mim..(mas que o materialismo transformou.)
As lágrimas não correm a minha cara, mas sinto que naquela poltrona vou achar um vaziozinho…

A sala onde velam o corpo é fria e desleixada, com dezenas de acentos que percorrem as paredes, cadeiras e sofás velhos, que ajudam a preencher aquele espaço vazio.

Chega o corpo.

Silêncio…
Ninguém sabe o que dizer em frente dele, em frente daquela pessoa que já nos pertenceu, que partilhou o nosso espaço e o nosso tempo…quem tem algo a dizer?

Ninguém.
Lamentam-se a observá-lo e a permitir que as lágrimas tímidas apareçam.

O tempo ali depositado, neste olhar pelo corpo, cumprimentar pessoas, tudo isso para mim perece inútil..tudo bem que chorem a pessoa, mas…nem tenho mais palavras…
Estou cansada…e este calor empurra-me o sono…

Olha a bela da manhã!

Sabem quando baralham os dias, como se deles não tivessem noção?
Pois…
Acordo cedo, preparo-me e saio porta fora, sem nunca confirmar horários, apanho a camioneta, bebo o elixir da energia, esfumaço a morte e lembro-me “porque não olhar para a hora marcada…”
Apenas a leve diferença de 8h.
Bela maneira de começar o dia…
Frequento de novo, o parque que definiu quem sou hoje, aquele tal, que fez de mim “esta”…se fez um bom trabalho ou não…não sei que dizer…mas que me deu bastante trabalho, deu!
Então quando puxava pelos meus braços e pernas para me fazer crescer…ui…aí sim, doeu…
Sem querer dou por mim agora a fazer de “trapezista”, a estar bem lá em cima, sem qualquer rede de segurança, o problema é não saber para que lado é a saída.
Estou ali no meio, sozinha como gosto, mas sem saber para onde me virar…mas como sou, tambem não vou perguntar, vou ficar ali mesmo a balançar, e ver se o tempo me empurra, ou ver se eu mesma me atiro, sem medo, e sempre com a esperança de que algo lá em baixo me ampare…