23 de Abril

“- Como foste capaz?”
Pergunta-me a Morte, espantada.
Capaz de a enganar de tal maneira, soltando a fúria e a raiva escondidas.
O pecado saiu dos meus lábios,
um capricho apenas,
um desejo egoísta,
que aproveitei para concretizar.
Apunhalei-A pelas costas, rasguei-lhe a pele, fi-la sangrar.
Lascas da minha traíção ficaram ficaram cravadas em si.
Morte!
Agarra em mim e leva-me contigo!
Sei que me desejas há muito,
agarra-me pelo cabelo e arrasta-me pela gravilha.
Tortura-me, sem me matar.
Finge que me beijas,
finge que me tocas,
finge que, ainda, me amas..
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Nada

A claridade fere-me os olhos
e as tuas palavras também.
A cada conversa, percebo o pouco que valho e o nada que mereço.
Sou nada.
Um estorvo na vida de cada pessoa que me rodeia, um gasto desnecessário, uma preocupação sem valor, de uma vulgaridade, quase que, ordinária.
A dor consome-me, assim como as lágrimas e o sentimento de culpa por não ser ninguém.
O pedaço de espelho que me corta, já nem dor me provoca, nem o prazer por ele suportada, a sinto mais…
Sinto o nada que sou,
O vazio que ocupo,
e o som mudo que transmito.
Nada!
Quem quer nada?
Ninguém.
Todos querem tudo, e eu não sou tudo,
sou nada.