Urgência de sentir

Agarro-te a face com as mãos.

Percebes-me?

Talvez não tenha sido clara o suficiente.
Na minha cabeça disse tudo, mas talvez as palavras tenham ficado presas em mim.

Fui tua enquanto era minha, mas ao mesmo tempo sempre fui mais minha do que tua.
Não deixando de ser tua, naquele tempo. Naquele espaço. Que era mais teu do que meu, enquanto eras meu e deixavas de ser teu.

E eras meu. Dos meus braços. Da tua força. Dos nossos olhos. Daquele estado, fora de tudo.

Quando nos deixámos perder?
Naquele espaço onde nos perdemos um no outro, ou na hora seguinte quando nos perdemos um do outro?

A efemeridade transforma. Transforma-nos.
A urgência de sentir o calor da outra mão e de ver o tempo fugir, consome as nossas ações e a forma como me sentes.

Perde-te comigo enquanto o ponteiro do relógio segue.
Prometo que não esmago o teu coração.

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Camminus

Sigo,
as pisadas do caminho a que me seguro.

Agarro,
o meu corpo, antes que se deixe cair no retorcer da cóclea.

Acredito,
nas perguntas que não faço e nas mãos de quem não me agarra.

Rio-me da vida e das cheirogas em que tropeço.

Choro.
Por tudo o resto. E pelas barras que me prendem.

Titubeio no qualquer.
Deixo a minha mão prender. Não devia. E ressinto.
Sinto o vulgar e sinto o rubricista.
Sinto no lugar em que o vácuo devia estar. Sinto.

Páro-me já demasiado perto e recuo,
guino para a direita a pensar que é a esquerda. Porque a esquerda do outro lado era a direita deste e rodando em mim troco a direita para a esquerda e a esquerda para a direita.

Sem cair.

Pego-me pelos ombros.
Endireita-te.
Tento correr mas gastei as pernas. Apanho o cristal impuro de ferro que caiu no rodopio. Não o consigo encaixar de volta. Cresceu.

Quero mais da minha pele. Pedem mais de mim. Não sou mais. Não sou menos. Só sou.

 

 

 

Sarrafo

Rasgaste-o. Depois de to conceder.
Derruístes a bondade que foi solta, inconsiderada.

Volto ao silêncio e a ecoar.

“…repetições de acontecimentos e atitudes.”

É um ciclo solar de onde não consigo sair. Faça o que fizer, seja eu quem seja.
E já fui tantas pessoas diferentes,
que já não me acho
e não me sei.

No espelho não consigo ver o que veem os outros. A disformidade que me causei, com os cortes que fiz, torna-me irreconhecível. Sou fraca. Parto fácil.
Sou inviável, mas a hora de ir tarda em chegar perto de mim.

Estou vazia.
Sou um sarrafo corrupto no chão molhado.
Pontapeiam.
Esmagam.
Choro.
Perco o meu brilho de verniz,
a minha côr.

É noite.
Umbrosa.
Fria.
Como eu me torno,
como o espaço vazio no meu peito.