Narração

Ambos olham na mesma direção.
Ambos sentem o vento frio que lhe corta a face, enquanto olham o rebentamento das ondas contra as rochas.

Ela dá um passo em frente. Quer sentir mais de perto o perigo daquele pedaço de terra suspenso.
– Este lugar tem tanto de belo, como de esmagador. – as suas palavras saem embaladas com o som do mar revoltado.

As suas mãos gelam fora dos bolsos, esperando o conforto e segurança das mãos dele.
Só pensa nisso. Mas não o consegue pedir. Não consegue dizer-lhe que é o que quer.

– Tenho medo de ti, da tua inteligência, das tuas palavras bem construídas. Pela primeira vez em muito tempo sinto-me intimidada por um homem. – as palavras constroem o seu caminho na sua cabeça enquanto o sente tão perto do seu braço esquerdo.

Estão em silêncio, como em muitas outras vezes.
Ela sente que o conhece. Sente que sabe o seu ritmo, os seus gestos, as suas expressões.
Sente que se não disser o que sente, ele desliza pelas suas mãos abaixo.
Mal respira.

Preciso de ti. Que tomes conta de mim.
Pela primeira vez, quero deixar-me.
Segura-me.

Dúvidas

As palavras que surgiram de estranhos, no sentido de me provocar a reagir ao que me rodeia, fizeram-me questionar de novo a realidade em que me insiro.

E sabem que mais?
Tenho de sair daqui.
Tenho de ir fazer o que amo.

Ontem disse: as paixões não movem negócios. 
Mas será que era eu a tentar ser racional e prática?

Deverei arriscar neste momento?
Tenho medo de sair da minha zona de conforto, e da segurança que me dá.

Incerto ou fico pelo comodismo?

Entre os dedos

Roubando palavras ao meu caro Pedro Paixão, cito, «o mundo todo é um mal-entendido que aguardamos que se resolva ou estoire e enquanto nada acontece sofremos. Agarramo-nos a coisas que se nos escapam entre os dedos.»

Conta-me os teus segredos

Dá-me a mão.ctm
Preciso do teu amparo, agora que o encontrei.

Os teus lábios movem-se mas apenas consigo ler os teus olhos,
A sinceridade presa neles,
A humildade das tuas expressões.

Onde te prendem as tuas raízes?
De onde cresceram as tuas mãos que tanto gesticulam?
Quero saber os teus segredos.

Sem pensar, abrigo-me na tua simpatia e deixo crescer o meu apreço.

Sinto-me menos.
Sinto-te mais.

Mais que outros, mais que eu própria.

Dás-me alento a querer mais.
Por outro lado fecho-me por me contentar com o pouco que tenho.

Leio-te à minha maneira e pergunto se o faço bem.
Já não confio na minha intuição como antigamente.
Roubaram-me o tempo e com ele os meus sentidos.

Tenho medo que o meu espírito tenha fugido num dos beijos que partilhei e desisti de guardar.
Receio não ser a mesma, e não saber levar esta nova pessoa por aí.

Dá-me a mão.
Leva-me e mostra-me o que tens.

Quero dar-te um pouco do meu mundo, para levares contigo no bolso.

Vento do norte

Levaste contigo os rascunhos que escrevi para me acompanharem.
Levaste e deixaste-me ficar com o medo de não encaixar em nada disto.

Levaste de mim a pessoa que mais me apoiava e a mais leal, que não hesitaram em seguir nos teus braços.

Fiquei.
Não me debati,
Não esperneei,
Não me viste triste.
Mas cada vez que penso na maldade do teu feito, crio em mim uma ideia de te destronar.

Não guardo lamentos.
Culpo-me por ter existido para ti deixando-me em último plano.

Não sei conversar.
Não sei lidar com situações fora do meu conforto, mas anseio por elas.

A minha sinceridade deixa-me com medo de ser mal interpretada.
O meu rir foge da linha do meu controlo.
A minha racionalidade não me deixa sentir – foi-me dito por um vento do norte.
E a minha intuição está avariada e não percebo nada de eletrónica.

Quero conhecer e deixar-me conhecer, mas tenho medo, que tal como disseste ninguém vá interessar-se pelas minhas linhas azuis.

Penso que estou a conseguir andar em linha reta.
Que consigo segurar de forma correta na caneta.
Mas creio que deixo passar por mim oportunidades.

Quero mostrar-lhe o que sei,
O que sou,
Do que gosto,
Mas tenho medo que fique preso nas linhas do meu convite.

Sou demasiado lirica,
demasiado sincera,
demasiado racional,
demasiado ponderada.
Mas na verdade, serei?