Desenho

Tens medo?
Às vezes tenho.

A luz fere-me o transparente da irís. Aguardo. Só não sei por quem é.
Agarro-me ao desenho que fiz de mim, e não largo. Nunca.

Deixo sair uma ou duas borboletas do meu tórax, deixo as suas asas tocarem no seu cabelo. Gosto.

Aguardo mais um pouco. Sem saber se é pelo melhor motivo.
As àguas-furtadas abrem concurso e prendo-me a isso. E esforço-me por algo que nunca ganharei.

És tu que me salvarás de mim? Que impedirás que me destrua?

Através da janela oval, vejo as mudanças de cor do céu. Aguardo.

Vivo do sentido que criei.
Dou as minhas respostas, às minhas perguntas.

Anseio que me desafiem, que me descubram.
Que me redesenhem no espaço.

Será que me esquecerão?

“Oiço o som do secador.
Está na hora.
Não me apetece começar tudo de novo, mas há muito que sei que não existe alternativa.
Prendo-me um pouco a ouvi-lo respirar, e permito-me levantar.
Passo a passo guio-me para a rotina aborrecida em que deixei que se tornasse a minha vida.

Oiço vozes. Troco palavras.

Dou por mim sozinha outra vez.
Do frio cai a questão: frango, porco ou vaca. Escolho o mais seguro.

Papeis, sirenes e uma maçã.

Sento-me com eles.
Será que eles sabem o quanto me orgulham?
Oiço a cada história, como se da mais importante se tratasse.
Às vezes deixo-me ficar a fixá-los e tento perceber o quão rápido se deixaram crescer.
Por vezes não reconheço estes seres humanos como aqueles bebés que deram luz à minha vida.

Conto-lhe o meu dia, na tentativa de levantar interesse.
As mesmas coisas, as mesmas pessoas, um sentimento parado no tempo onde a areia já não corre.

Sinto como se já tivesse gasto tudo o que há para dizer.
Torço o meu coração, mas já não há vida nova a sair.
Sinto-me ultrapassada. Sinto que já não precisam de mim.”

– Mãe!!!
– Han?! Já te disse que não sei do teu casaco!
– Ajuda-me. Sinto que não sei lidar com isto…E se não existir nada mais?
– Filha…os teus olhos grandes…seres tu própria…panelas e tampas…feliz…depois vais perceber… – É isto que repetes sempre que parece que vou cair outra vez, e todas as expressões, frases e conselhos guardo dentro de mim e mesmo quando grito é porque sei, integralmente, o que vai sair de ti.

Guardo tudo, como te irei guardar a ti.
Não apenas em mim, mas serei quem escreve sobre ti, quem falará da tua vida e a contará como tendo feito, orgulhosamente, parte dessa história, que de aborrecida não tem pitada.
Vou falar das 23:50 do dia 5, dos 49 cms, do teu cabelo loiro e dos gatos Chicos.
Vou fazer por te perpetuar como eterno agradecimento pela vida que me deste.