Via rápida

A noite invadiu os meu olhos outra vez…deixei de ver claro, a escuridão apoderou-se dos meus movimentos e acções…
Passo sobre eles. E fechando os olhos imagino que destruição deixariam os carros a alta velocidade no meu corpo…mas aguardo e sustenho o meu desejo.
E chorando ponho para fora a raiva da contínua existência própria, da minha existência.
Cada vez vou aguentando menos, a minha tolerância á dor aumenta, enquanto as ideias do”como”surgem como loucas…
A paixão pela vida, nunca a tive, e enquanto o meu corpo aguenta o mal que lhe faço, a minha mente chora o sangue que já derramei, e os pensamentos que deixo cair, esmagam-se no alcatrão da via rápida, onde o meu corpo devia estar, imóvel e morto…
Não morto como agora! Morto como um gato malhado atropelado por um camião!
O espelho reflecte o meu ódio, mas continuo a olhar na esperança de que o reflexo surja diferente.
Bate-me!
Esventra-me!
Mata-me!
Pois as forças que tenho não mo permitem.

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Sê a Outra

AMAMOS sempre no que temos
O que não temos quando amamos.
O barco pára, largo os remos
E, um a outro, as mãos nos damos.
A quem dou as mãos? À Outra.
Teus beijos são de mel de boca,
São os que sempre pensei dar,
E agora e minha boca toca
A boca que eu sonhei beijar.
De quem é a boca?
Da Outra.
Os remos já caíram na água,
O barco faz o que a água quer.
Meus braços vingam minha mágoa
No abraço que enfim podem ter.
Quem abraço?
A Outra.
Bem sei, és bela, és quem desejei…
Não deixe a vida que eu deseje
Mais que o que pode ser teu beijo
E poder ser eu que te beije.
Beijo, e em quem penso? Na Outra.
Os remos vão perdidos já,
O barco vai não sei para onde.
Que fresco o teu sorriso está,
Ah, meu amor, e o que ele esconde!
Que é do sorriso
Da Outra?
Ah, talvez, mortos ambos nós,
Num outro rio sem lugar
Em outro barco outra vez sós
Possamos nos recomeçar
Que talvez sejas A Outra.
Mas não, nem onde essa paisagem
É sob eterna luz eterna
Te acharei mais que alguém na viagem
Que amei com ansiedade terna
Por ser parecida Com a Outra.
Ah, por ora, idos remo e rumo,
Dá-me as mãos, a boca, o teu ser.
Façamos desta hora um resumo
Do que não poderemos ter.
Nesta hora, a única,
Sê a Outra.
(A Outra, Fernando Pessoa)

“When music really mattered and when radio was king”

Sem nada em que pensar, penso no nada que é a minha vida…
Longe da normalidade quotidiana, descanso a cabeça nos ombros e digo a mim mesma que não tarda a voltar.
Ouço esta musica que acompanha as estações, e lembro que a tal da “normalidade” está tão perto que não sei se a vou conseguir voltar a ver.
Quero a vida como um filme!
Um filme onde tudo fosse emocionante e novo.
(“When the head of state didn’t play guitar
Not everybody drove a car
When music really mattered and when radio was king
When accountants didn’t have control
And the media couldn’t buy your soul
And computers were still scary and we didn’t know everything“)
Isso chegava…
E quando chegava a noite…íamos todos até whatever e ríamos, e éramos nós, e podíamos gritar, e estar até decidirmos puxar o novo dia…