Lhano

Deixo-me vazia outra vez.
Volto ao jogo, não pela diversão, mas porque a humilhação é um sentimento, e preciso de me deixar sentir alguma coisa…

Antes tinha uma mão cheia de palavras e perguntas, e agora, nada.
Fiquei com o nada que já existia, mas que dissimulava com risos e camisolas de cetim azul.

Quando estou perto de dar.
Paro.
Tiro a importância ao que tinha dado e retiro-me respeitosamente.

Encho-me de melodia e tento respirar, fundo.
E lembrar-me do que sou.
Mas sei que será muito mais fácil esconder tudo com as mãos de outros.

Destruo tudo o que me possa tornar invocável e apresento-me como o que não sou.

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Cruviana

Estavas do lado oposto da estação.

Os teus olhos ainda cheios de mim.
Enquanto os meus tentavam a todo o custo evitar-te, e evitar o que não me queria deixar sentir.

O que vivemos foi um fingimento apenas nosso, e nosso apenas.
Mas soube a verdade.

É o problema das ilusões, parecerem tão reais no presente. E quando se deixam desmoronar a nossa frente levam-nos junto.

Veio o comboio.
Apertaram-me o coração.
Arrepiou-se-me a pele.

Sabia que tudo ia acabar com aquele som estridente de travagem metálica, e que em breve não passarias de uma história.
De uma recordação do tempo em que fui quem não era, ou quem era, nunca os meus sentidos me deixaram perceber.

Truncado; Mutilado; Imperfeito.

Deixo escrita mais uma história incompleta.
Sabotei mais um começo e escrevo-lhe um fim forçado.
É da minha escrita.
Do meu jeito,
fazê-lo.

Incapacitar o possível, 
Causar a morte inesperada,
Tornar o ar irrespirável
e vencer pelo cansaço.

Ocupo-me do que resta,
do que guardei.
Não do melhor.
Mas do que guardei no bolso para emergências.

Tornarei a história, antes teatral, num nada de interesse.
Em mais uma história a colocar no livro.

Trestampo o significado da inerência.
Tento o ostracismo.
E refreio a partilha do eu, que continua a ser em demasia para ser seguro.

Quero o frio, para não me sentir

Deixo cair as mãos.

#Fecho de cena

Deixo o sorriso forçado de lado,
o cabelo arranjado,
a maquilhagem perfeita.

Quero mais.

Termino sem saber quem sou, mas preciso de sair.
Gastei a personagem,
usei todos os truques de magia.

Fui Hipólita,
Fui Ofélia,
Sou Titania. Ou já não serei.

Tive a certeza,
Tive o abraço,
Tenho o ar, tenho o silêncio.

Encontro no reflexo dos olhos dos outros o que sou
e em quem me tornei, ou, me deixei tornar.