Quero

A dor de saber que não te volto a ouvir e sentir, tomou conta do meu corpo esta noite.

Já afastei tanta gente da minha vida e tu estás a custar-me litros de preocupações e tempo.

Preciso que me digas que fiz a coisa certa.
Preciso que me digas que percebes.

O vazio mesclou-se com os pesadelos e a espera.
A tristeza lutou contra o racional e o certo.

Quero-te onde estou.
Quero perder-me nos teus olhos de novo.
Quero as tuas mãos a serpentear pelo meu cabelo.
Quero que não me deixes ir…

Explicação

Desci os degraus do autocarro e os meus pés tocaram esta terra.
Fui devolvida ao real,
Ao passado,
Aos meus demónios,
Ao nosso presente.

Por dois dias deixei-me ser eu.
Por dois dias deixei-me aconchegar na tua mão.
Mas este chão traz um peso.
E é um peso que estou demasiado habituada a carregar sozinha.

Tens demasiado dele, para conseguir distinguir-te.
Misturo-vos em mim e devolvo-te sem te querer.

Naquele quarto, só nós, não pensei demasiado.
Nem me apercebi que existia mais espaço lá fora,
Mais pessoas,
Mais sons para além da tua respiração.

Tenho receio de uma repetição.
Repetição do antes de ti.
Repetição do mau de mim.

E afastei-te.
Afasto-te.
Numa tentativa vã de te libertar de mim.

Quando estava no teu ombro a tentar guardar em mim o teu cheiro, já tinha as vozes na minha cabeça a dizer-me que seria melhor ficar por ali.

Quero dar-me a ti, mas tenho medo de mim e do que te posso fazer.
Por isso, desculpa.

Deixo-te sem fazer mossa.
Deixo-te inteiro.
Deixo-te o meu cheiro na memória.

Madrugada

Foi na primeira noite de todas as noites.

A madrugada parou e com ela rebolei para ti.
Quieta e com a ajuda da lua observei-te em silêncio.
Novo.
Estranho.
A tinta cravada no teu braço, tentei decifrá-la, mas não consegui.
Olhei o teu perfil e perguntei pela minha sanidade.
Não obtive resposta.

Foste um risco que quis correr.
Foste um fingir.
Mas também um imaginar.

Não me prendi.
Não te prendi.
Mas o teu cheiro escorre p’la minha pele e não o consigo tirar.

Desta vez deixar-me-ei ir.
Despedindo-me com a curiosidade sobre o que podias ter sido.

Encontro

Ao perguntar-te ‘quem eras tu’, não tinha intenção de contribuir para o cliché verbal a que tanto me oponho, mas sim, interrogar-me retoricamente.

Surpreendeste-me, não só pelo que te mostraste ser,
Mas pelo que me fizeste sentir:
O conforto,
A segurança,
O ser desejada.

Lamento que tenhamos de nos perder, depois de nos termos encontrado.

Não poderei por de parte o facto de sermos diferentes e de não partilharmos ideais semelhantes.
Pergunto-me se, continua a ser “o fator comum” que liga as pessoas?

Ainda não revi tudo na minha cabeça.
Tenho receio que me traga a paz que senti contigo.

Vou guardar.

A minha mão pede o enlace da tua.
O meu pescoço os teus lábios,
E o meu corpo, o teu calor.

Há já bastante tempo que não me sentia parte de alguém.