Segredo

Era o nosso segredo.

Aquele que me fizeste prometer que não sairia da minha boca.
Aquele que nem sozinha podia repetir.

Tive de o manter preso nos meus lábios.
Preso dentro de mim.
A repetir…
Repetir…
Na minha memória.

As sombras.
Os sons.
Os cheiros.
Dentro de mim.

Mas foste tu a deixá-lo sair.

Difícil de acreditar.

Uma ação que apagámos de nós.
Uma ação que me obrigaste a esquecer e a fingir que nunca tinha acontecido.
E foste tu a precisar de partilhar com alguém.

Se tivesse sido eu a falar, perdoavas?
Tanto me convenci da pouca importância do sucedido, que não vou sequer perguntar-te o porquê de o teres feito.

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Abismo

Caio.

E não paro de cair.

É um precipício interminável.
Caio rápido e não vejo forma de parar.

Ela leva-me consigo, sem se aperceber.

Tento agarrar-me ás rochas, mas acabo por me magoar.

Por favor, não me arrastes contigo.
Percebe que somos só nós.
Só nós dois.
E que terei de te seguir para onde fores.

Sê agora tu, um pouco forte.
Abraça-me tu, para que não fique triste.
Consola-me e acaricia o meu cabelo como antes.

Quero parar com isto por um bocadinho.
Quero esquecer que aconteceu.
Quero voltar a contar com ele, tal como tu.

Pára.
Ou, de outra forma, terei eu de ficar parado.
No mesmo sitio.
Contigo.

Do teu filho

Esta manhã já não soube ao mesmo.
Acordei com a boca seca, como se tivesse uma nuvem de poeira sobre mim.
Esperei que tudo não passasse de um sonho, mas há pouco ouvi a mãe a chorar.

Os abraços, os beijos e os apertos de mão não preenchem o vazio e a dor de me manter em pé, mas o seu calor recorda-me de que não estamos sozinhos.

“A vida continua.” – todos me dizem.
Como é que a nossa vida pode continuar se parte dela já não está presente?

Por vezes, no meio da dormência vem um pico doloroso de saudade.
Dou com uma lágrima a escorrer pela barba, sem me ter apercebido de que chorava.

Porque é que deixaste de lutar?
Já não aguentavas mais?

Eras a pessoa mais forte que alguma vez conheci.
Eras o homem da vida da mãe.
Pergunto-me se serei capaz de calçar os teus sapatos.
Se conseguirei ser forte o suficiente.
Se fui o que esperavas de mim.
Se te dei orgulho, por quem me tornei…

Permaneço firme, enquanto te descem.
Represento-nos.
Represento-te.
Cobrem-te com terra e hesito porque acho que não me despedi o suficiente.

Não oiço nada.
Apenas a pá na terra, e a terra na madeira.
(Será que fiz o suficiente?)
Arde-me o peito.

Os olhos das pessoas em mim.
(Sou forte.)
A mão dela na minha.
(Respira.)

Onde é que irei ouvir a tua voz de novo?
O calor da tua mão na minha cara.

A casa ainda não deu pela tua falta. Ainda mantém o teu cheiro. Ainda há roupa tua no estendal. O teu lugar na mesa ainda cá está.
(Posso chorar?)

Voltarei a ser o mesmo?
Posso ainda dizer que sou teu filho, se já cá não estás?

Vou deixar-te ir.
Irei prepetuar-te om as minhas ações e junto da minha memória e coração.
Podes ir, pai.
Eu guardo a mãe. Eu protejo-a do que surgir.
Vou manter-nos bem.
Podes parar de sofrer.

Que todas as flores que te cobrem, te protejam do frio.

(em memória de Carlos Lopes 1962-2013)

Antigamente

Deixo-me contagiar pela beleza da ruína.
Deixo os meus olhos seguirem os azulejos partidos,
As madeiras tortas,
Os vidros que escondem o privado de outrém.

Deixo-me recordar.
Recordações que não me pertecem.
Pertencem ao seu tempo e ás suas pessoas,
Não a mim.

Sou do agora, mas não quero.
O lirismo de outrora encaixa na minha pele sem forçar.
E o preto e branco de hoje, estraga o romântico.
E não é opção, o cinzento.

Tenho-me

As palavras correm mais facilmente de mim, quando tenho dor nos meus dedos.
E hoje não tenho.

Tenho respirar, tenho gratidão, tenho-me.
Todas as parcelas encaixam e estão equilibradas.

Até deixarem de estar.
E ruirem.

Mas viverei o agora, pois é o que tenho.

Sinto-me contagiada pelas luzes, pelos cheiros, e até pelos espirros.
Mas coloco o braço no frio todos os dias com gosto.

A novidade traz-nos outra visão.
A juventude faz-nos rir.

E vou continuar com este sorriso até me fartar.