A música fá-lo por ti

Transbordam de ti melodias infinitas, sons elegantes e acordes contínuos.
A poesia faz mover cada um dos teus músculos e bombeia o liquido a que chamas de sangue.
Somos etéreos e leves quando nos deixamos balançar no ritmo,
Quando sentimos em nós as palavras cantadas.
Perdemos o real de nós
E ganhamos a magia.
Permanece nesta viagem por muitos anos,
Onde nos surpreendes,
Onde te completas,
Onde nos perdemos.
Pois, de certo, continuaremos a viajar junto de ti.

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Vitral

És maior do que o que guardas.
És mais forte.
És mais independente.
És mais de ti.
Quando a minha voz se torna dura, sou eu a chamar pelo teu eu.
És linda, sem nisso acreditar.
És uma mulher, mesmo sem te deixares amar.
És delicadeza,
És elegância,
És a luz frágil e etérea que temos connosco.
És aquele sorriso escondido,
És um fechar de olhos.
Mas és por demais, a que vamos sempre proteger e trazer em abraço.
Sabe sempre que estás comigo,
E que eu nunca deixarei de estar contigo.

Podes!

Os teus passos levam-te à minha frente no caminho.
Reconheço-te pela silhueta do teu pescoço.

Será que te lembras de ter adormecido junto a mim ontem à noite?
Ou nas noites anteriores?

Prendo-me com medo de me repetir em ti.
De te dar o que dei em outros sitios, outrora.
Por vezes tento aproximar-me, a medo,
Mas lembro-me que não és um dos jogadores e recuo.

Sento-me curvada a aguardar que um dos teus caminhos te guie a mim,
Por ter demasiado medo de estragar alguma coisa que apenas vive na minha cabeça.

Aguardo silenciosamente que o jogo comece quando alguém disser: Podes!

De Roma a Saramago

Tenho-te preso em mim, como se de um pulmão meu te tratasses.
Sei o que significam os teus olhos,
Sei o que são as tuas mãos,
E reconheço o significado das palavras que deixas por dizer.

Rodeámos-nos de palavras e frases sobre alicerces e civilizações,
E debatemos o passado do indivíduo e do divino.
Perdemos as nossas horas a criar invenções já construídas,
E a renegar a ideias já testadas de outros.

Somos o que fomos, e o que seremos.
E tudo o que daí somámos.
Testamos-nos e deixamos-nos ir de tempos em tempos.

Guardarei as memórias com carinho.
Guardarei as conversas e discussões,
As suspeitas e o choro,
As frases e os passos.

Guardar-te-ei como companhia do meu passado e como presença do meu agora.
Os anos passam por nós e nós a ver a nuvens a correr no céu.

Ímpio

Parece mágico esse magnetismo que emites.
O alcance longínquo do teu olhar, parece chamar-me a ti.

A energia do teu sorriso prende-me sem que queira.
Não te consigo ler de forma perfeita, pois não o permites,
Mas trazes-me curiosidade e desarmas-me.

Não era suposto fazeres-me sorrir a mim.
Não podes ser minha. 

O enastrar do teu cabelo, dá-me vontade de tocar.
Quero agarrar-te para não te perder de vista.
Mas não podes ser minha.

Lembrar-te-ás da minha cor amanhã, ou será o cheiro dele que ficará em ti?

 

Linha Vermelha

“Encheste as tuas veias de ilusões e luzes azuis imaginárias, quando tudo era apenas vazio, desígnios e preto e branco.

O transformar frásico das palavras em erros e expressões vulgares torcem-me os pulsos e ardem-me os olhos.

Não vivo de fantasia ou de histórias de magia ou monstros.
Respiro o pragmático e o ortoscópico.

Vou parar-te antes de te perderes:
Não vais transformar a minha areia em vidro.
Não tu.
Não neste tempo.

Vai e parte no escuro com o chalrear do teu pássaro.
Vai e deixa-me com o caminho real que criei pra mim.”

Lhano

Deixo-me vazia outra vez.
Volto ao jogo, não pela diversão, mas porque a humilhação é um sentimento, e preciso de me deixar sentir alguma coisa…

Antes tinha uma mão cheia de palavras e perguntas, e agora, nada.
Fiquei com o nada que já existia, mas que dissimulava com risos e camisolas de cetim azul.

Quando estou perto de dar.
Paro.
Tiro a importância ao que tinha dado e retiro-me respeitosamente.

Encho-me de melodia e tento respirar, fundo.
E lembrar-me do que sou.
Mas sei que será muito mais fácil esconder tudo com as mãos de outros.

Destruo tudo o que me possa tornar invocável e apresento-me como o que não sou.

Cruviana

Estavas do lado oposto da estação.

Os teus olhos ainda cheios de mim.
Enquanto os meus tentavam a todo o custo evitar-te, e evitar o que não me queria deixar sentir.

O que vivemos foi um fingimento apenas nosso, e nosso apenas.
Mas soube a verdade.

É o problema das ilusões, parecerem tão reais no presente. E quando se deixam desmoronar a nossa frente levam-nos junto.

Veio o comboio.
Apertaram-me o coração.
Arrepiou-se-me a pele.

Sabia que tudo ia acabar com aquele som estridente de travagem metálica, e que em breve não passarias de uma história.
De uma recordação do tempo em que fui quem não era, ou quem era, nunca os meus sentidos me deixaram perceber.

Truncado; Mutilado; Imperfeito.

Deixo escrita mais uma história incompleta.
Sabotei mais um começo e escrevo-lhe um fim forçado.
É da minha escrita.
Do meu jeito,
fazê-lo.

Incapacitar o possível, 
Causar a morte inesperada,
Tornar o ar irrespirável
e vencer pelo cansaço.

Ocupo-me do que resta,
do que guardei.
Não do melhor.
Mas do que guardei no bolso para emergências.

Tornarei a história, antes teatral, num nada de interesse.
Em mais uma história a colocar no livro.

Trestampo o significado da inerência.
Tento o ostracismo.
E refreio a partilha do eu, que continua a ser em demasia para ser seguro.

Quero o frio, para não me sentir

Deixo cair as mãos.

#Fecho de cena

Deixo o sorriso forçado de lado,
o cabelo arranjado,
a maquilhagem perfeita.

Quero mais.

Termino sem saber quem sou, mas preciso de sair.
Gastei a personagem,
usei todos os truques de magia.

Fui Hipólita,
Fui Ofélia,
Sou Titania. Ou já não serei.

Tive a certeza,
Tive o abraço,
Tenho o ar, tenho o silêncio.

Encontro no reflexo dos olhos dos outros o que sou
e em quem me tornei, ou, me deixei tornar.